Jardim Aberto
Música ao vivo
Terça-feira, 12 de janeiro · 18:30
Neste concerto 'Jardim Aberto', Alexis Hatch, Isabel Pereira e Alexandre Alvarez interpretam as Variações Goldberg de Bach na transcrição para trio de cordas de Dmitry Sitkovetsky, revelando a clareza contrapontística e a eloquência da música de Bach.
Poucas obras do repertório antigo atravessaram tão longamente o tempo e as fronteiras dos instrumentos como as Variações Goldberg. Publicadas em 1741, no volume IV dos Clavier-Übung , constituem o mais extenso conjunto de música para teclado impresso no século XVIII e um dos raros casos em que a obra de Bach alcançou notoriedade, ainda em vida do compositor. A lenda que associa a sua génese à insónia do code Keyserlingk e ao jovem cravista Johann Gottlieb Goldberg tem vindo a ser desmentida pela investigação musicológica; mais consensual é que Bach tivesse em vista, como intérprete provável, o seu filho Wilhelm Friedemann. Independentemente da história que se lhe colou, o que permanece é uma arquitetura de trinta variações, verdadeira enciclopédia do teclado e exercício superior de invenção contrapontística. A passagem desta obra para outras formações instrumentais inscreve-se numa prática que não é moderna, nem alheia a Bach. No período barroco, transcrever, adaptar e reutilizar material alheio era procedimento corrente entre compositores, e o próprio Bach o praticou, tanto com música sua como com obras de outros compositores. A transcrição não trai a obra: prolonga-lhe a vida e amplia-lhe o alcance. É neste contexto que se situa a versão para trio de cordas de Dmitry Sitkovetsky, iniciada em 1984 sob o impacto da gravação das Variações por Glenn Gould, concluída em 1985, ano do tricentenário do nascimento de Bach, e dedicada à memória do pianista. Com os três instrumentos, o contraponto ganha clareza e a arte de Bach revela-se na sua nitidez e eloquência. Alexis Hatch, Isabel Pereira e Alexandre Alvarez dão voz a esta leitura, mostrando que a música de Bach continua a interpelar músicos e públicos, sinal de que permanece viva, não como monumento, mas como presença ativa.